Podemos imaginar um Mundo sem produção pecuária?

Para a generalidade das pessoas a nível mundial e para os europeus em particular, um mundo sem pecuária não é algo que seja pretendido de forma generalizada. No entanto, uma minoria da população europeia está a equacionar um Mundo “livre da produção pecuária”. Esta mensagem clara e radical pode parecer sedutora para quem a considere uma visão de futuro coerente. Contudo, a futura eliminação de um grupo de alimentos, resultará em consequências não equacionadas.

Determinar todos as consequências sociais, ambientais e económicas causadas pelo abandono do modelo de produção pecuária da Europa é complexo, mesmo para os investigadores, e alguns dos efeitos indirectos são quase impossíveis de prever. Contudo, existem cinco consequências que podem ser consideradas comprovadas:

A Europa perderá um campeão da bioeconomia circular

Numa bio-economia circular global, a produção animal desempenha papéis muito valiosos que desapareceriam num mundo sem pecuária. Ao valorizar na cadeia alimentar os subprodutos a pecuária contribui para uma agricultura mais eficiente e para uma sociedade mais rica culturalmente e mais criativa. A reciclagem ou aquilo a que alguns chamam de "reaproveitamento" de biomassa a partir de recursos como o prado, a palha e o farelo, que não são comestíveis para as pessoas, é um processo importante. Estes resíduos e subprodutos se não forem consumidos pelos animais, podem rapidamente transformar-se num ónus ambiental, à medida que a aumentar a procura por alimentos processados. A reciclagem de couro e peles de animais para a indústria de peles e curtumes fornece à sociedade um material bonito e resistente com propriedades únicas que é utilizado no calçado, na roupa, no mobiliário, em assentos e interiores de automóveis, em instrumentos musicais, na encadernação de livros e num leque diversificado de produtos que criaram e mantêm o valor cultural de muitos países Europeus.

A pecuária por usar pastagens menos adequadas para a agricultura e por reciclar e utilizar o estrume como um recurso biológico, está em paralelo a regular os ciclos ecológicos, a fechar o clico de nutrientes, a melhorar a fertilidade do solo e o sequestro de carbono. Em áreas de mosaico agro-pecuário, a rotação de pastagens tem também a função de quebrar o clico de pragas das culturas agrícolas, permitindo que os agricultores reduzam a utilização de pesticidas. Num mundo sem pecuária o aumento da procura por produtos de base vegetal teria como resultado uma intensificação dos usos agrícolas do solo, um aumento da área agrícola necessária para a produção de alimentos, uma perda de biodiversidade e o abandono de terras desadequadas para para a produção agrícola, como por exemplo, as zonas de montanha. (Ver também: Resource Efficiency Champions: Co-Products, an Essential Part of Animal Nutrition)

O Mundo Rural Europeu será esvaziado

A pecuária é hoje uma componente essencial do Mundo Rural da Europa. A ampla diversidade de sistemas de produção pecuária está presente em quase todas as regiões da Europa, de acordo com os contextos económicos, geográficos e sociais locais. O setor contribui substancialmente para a economia europeia (168 bilhões de euros por ano, cerca de 45% da atividade agrícola total), para a balança comercial e cria cerca 30 milhões de postos de trabalho. Sem a pecuária aumentará o êxodo rural criando uma pressão adicional nas cidades e um maior afastamento da natureza e do património cultural. Num contexto de aquecimento global, as áreas abandonadas contribuiriam para o aumento do risco de incêndio rural.

O uso e o preço dos fertilizantes sintéticos aumentarão

O setor pecuário não produz apenas alimentos, mas também uma diversidade de subprodutos, como o estrume e outros efluentes. Hoje, 40% da área cultivada no mundo usa fertilizantes orgânicos provenientes da produção animal. Portanto, sem a pecuária teremos um importante aumento do uso de fertilizantes sintéticos, o que resultaria num crescente aumento da dependência dos agricultores europeus face às importações de fertilizantes, colocando em risco nossa segurança alimentar. Hoje os fertilizantes já representam um terço dos custos do agricultor e num futuro com um preço dos fertilizantes mais elevado, a produção agrícola não será lucrativa sem um aumento global de preços.

Os fertilizantes são apenas um exemplo simbólico comum a todos os tipos de animais. Outros subprodutos do sector pecuário são menos conhecidos, como produtos cosméticos ou a bioenergia, serão difíceis de substituir sem aumentar o custo ambiental, económico e social.

Uma parte do património gastronómico Europeu irá desaparecer 

Uma mudança drástica na produção pecuária traria grandes desafios para fazer face às necessidades nutricionais das populações. Sem carne, queijo, ovos e peixe a população da UE não teria as quantidades necessárias de vários nutrientes essenciais. Uma dieta apenas vegetariana exigiria que os indivíduos ingerissem diariamente mais alimentos e mais calorias para suprimir as necessidades nutricionais, porque os nutrientes disponíveis nos vegetais não estão nas mesmas quantidades que nos alimentos de origem animal.

A eliminação carne aumentaria as deficiências de cálcio, de vitaminas A e B12 e de alguns ácidos gordos importantes (presentes nos peixes). Estes últimos são importantes, pois ajudam a reduzir doenças cardiovasculares e melhorar a função cognitiva e a visão dos bebés. Os alimentos de origem animal são as únicas fontes “não-suplementares” disponíveis de alguns ácidos gordos e vitamina B12.

Nesse cenário, os agricultores e a pecuária das zonas rurais, seriam substituídos por indústrias centralizadas de produção de alimentos alternativas à carne e pela indústria farmacêutica na produção de vitamina B12.

A pegada de carbono das nossas refeições não diminuirá substancialmente 

Do ponto de vista das alterações climáticas, um mundo sem pecuária provavelmente não seria o que alguns poderiam esperar. Sem ruminantes seria difícil a manutenção das nossas paisagens de pastagens e sebes. A área de floresta aumentaria e, em caso de temperaturas extremas, seriam suscetíveis ao fogo. Um estudo realizado nos Estados Unidos pelos zootécnicos Mary Beth Hall e Robin R. White, concluiu que nos EUA a total remoção da componente pecuária resultaria apenas numa diminuição de 2,6% das emissões totais dos EUA, sendo esta a principal consequência de abandono pecuária. Considerando a diversidade e a diferença de modelos agrícolas europeus e americanos, podemos apenas presumir que as vantagens seriam ainda menores na Europa. Além disso, há pouca avaliação da pegada de carbono da carne sintética alternativa, que pode não ser tão boa quanto o esperado. 

Numa declaração em 2017 na Animal Task Force, Jean-Louis Peyraud um investigador do INRA afirmou que: “Um mundo sem pecuária é apenas uma utopia de curto, médio e longo prazo. É hora de voltarmos a posições mais realistas baseadas em factos. Remover a pecuária seria um absurdo absoluto para a humanidade. Mas isso não significa que não precisamos melhorar nossa maneira de criar animais, respeitá-los, oferecer-lhes uma vida decente e garantir que o abate seja realizado sem dor nem stresse. Temos que continuar a pesquisar e inovar para reduzir os impactos negativos da pecuária e aumentar os serviços que ela oferece às nossas sociedades.” 

Bibliografia:
- https://www.pnas.org/content/114/48/E10301.full
- https://www.futura-sciences.com/planete/actualites/rechauffement-climatique-viande-in-vitro-encore-pire-planete-vraie-75120/
- http://pr.euractiv.com/pr/world-without-livestock-farming-makes-no-sense-humanitarian-economic-ecological-and-agronomic

Qual será o impacto da redução da actividade pecuária no Mundo Rural?

O primeiro impacto significativo da redução do número de explorações pecuárias será o enfraquecimento do tecido rural e consequentemente da viabilidade e atractividade do Mundo Rural. Por detrás de cada exploração pecuária estão sete postos de trabalho em áreas rurais. Outra consequência importante da redução da produção pecuária será o impacto no solo e na biodiversidade.

As atividades pecuárias estão presentes em quase todas as áreas rurais da Europa e profundamente enraizadas nas tradições rurais europeias, oferecendo uma ampla diversidade de sistemas de produção, adaptados a contextos locais e geográficos. O setor pecuário contribui substancialmente para a economia europeia (168 bilhões de euros por ano, 45% da atividade agrícola total), cria 4 milhões empregos diretos e indiretamente assegura os postos de trabalho para 30 milhões de pessoas, principalmente em áreas rurais. As indústrias europeias ligadas à produção animal (leite, carne e alimentos para animais) movimentam anualmente cerca de 400 bilhões de euros. A produção pecuária futura poderia, de facto, contribuir muito para a economia circular ou para indústria digital, criando novos Campeões da Economia Europeia.

A maior contribuição áreas rurais para a balança comercial da UE é através da produção pecuária e de alimentos. A UE é por norma autossuficiente em produtos de origem animal e comercializa os estes produtos nos mercados mundiais (19,5 bilhões de euros). É um exportador líquido de carne de porco, de lacticínios, de carne de aves e de ovos. Manter o setor pecuário dinâmico num ambiente internacional mais complexo, é uma mais-valia que beneficia não apenas as áreas rurais, mas também toda a Europa, e não apenas setor agrícola. A UE Graças à sua capacidade de exportação pode também promover seus altos padrões de segurança alimentar, ambientais, de saúde e bem-estar animal, levando seus parceiros comerciais a aumentar seus próprios padrões.

Hoje, quase três quartos da população Europeia vive em áreas urbanas, e até 2050 estima-se que 80% dos europeus viverão em cidades, tornando a Europa o continente mais urbanizado do mundo, juntamente com a América do Norte. De entre muitas razões que explicam o êxodo das comunidades rurais para as cidades, é óbvia a expectativa de maior nível de rendimento. Uma redução do setor pecuário poderia aumentar directamente essa tendência de urbanização.

Bibliografia:
- European Urbanization Trends

O consumo de carne e a nossa saúde - existe impacto?

A carne tem sido e continuará a ser uma fonte importante de alimento, fornecendo um leque variado de nutrientes facilmente absorvidos pelo nosso organismo. Em conjunto com outros alimentos de origem animal, como o peixe, os ovos e o leite, desempenham também um papel importante em diversas tradições culturais e gastronómicas por toda a Europa.

As pessoas estão biologicamente adaptadas a uma dieta que inclua carne e que desempenhe um papel importante numa dieta saudável e equilibrada. De facto, alguns nutrientes encontrados na carne e noutros alimentos de origem animal, não são facilmente absorvidos (ou não existem mesmo) através de alimentos de origem vegetal.

A carne é uma excelente fonte de diversas vitaminas, minerais e micronutrientes essenciais que podem ser facilmente assimiláveis pelo corpo humano. Por exemplo, uma porção de 100g de carne vermelha fornece cerca de 25% da dose diária recomendada (DDR) de riboflavina, niacina, vitaminas B5 e B6 e dois terços da vitamina B12.

Dietas pobres em alimentos de origem animal podem ter como consequência várias deficiências nutricionais. Estudos demonstraram que dietas com pouca carne podem representar riscos para o desenvolvimento do cérebro e do sistema reprodutivo. De fato, é reconhecido que nas crianças os alimentos de origem animal são essenciais nos primeiros 1.000 dias de vida, enquanto para os pré-adolescentes são importantes no desenvolvimento do esqueleto e do cérebro .

Existem vários compostos bioativos importantes na carne e produtos à base de carne processada, como a vitamina B1, o ferro, o zinco, a colina, a L-carnitina, o ácido linoléico conjugado, a glutationa, a taurina e a creatina, que foram estudados pelas suas propriedades fisiológicas.

Por exemplo, o ácido linoléico conjugado (ALC) nas últimas duas décadas chamou à atenção significativa devido à variedade de efeitos biologicamente benéficos. O ALC modula as respostas imunes e inflamatórias e melhora a massa óssea, enquanto a carnosina possui fortes atividades antioxidantes e anti-genotóxicas, incluindo o antienvelhecimento das células.

Em resumo, desenvolvemo-nos enquanto omnívoros e a carne é um componente central de nossa dieta há milhões de anos. A carne e os produtos processados podem ser consumidos com segurança fazendo parte de dietas saudáveis e equilibradas.


Bibliografia:
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22452730
- Should dietary guidelines recommend low red meat intake?
- Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017

Quais as tendências actuais de consumo de carne na Europa?

O consumo de carne vermelha nos países ocidentais tem vindo a mudar, e a sua função na sociedade tem sido influenciada por diversos factores, tais como questões económicas, ambientais, éticas e de saúde. A carne mais consumida na Europa em kg/per capita é a de porco.

Na Europa regista-se uma diminuição no consumo de carne bovina. à semelhança do que acontece noutras regiões do Mundo. 

veja os gráficos do FAOSTAT com as últimas tendências- 

Alguns estudos afirmam que quer a carne vermelha quer a processada causam cancro - estará correcto?

Não. A maioria das evidências são estudos de observação e são baseadas em níveis de consumo de carne processada que excedem a média de consumo da maioria dos países da Europa. Portanto, tudo o que podemos afirmar seguindo a ciência é que dietas ricas em carne processada estão associadas a um aumento do risco de cancro colorretal. Um “aumento do risco” não significa que o consumo de carne vermelha e processada cause cancro, uma vez que para o comprovar seriam necessários estudos mais precisos. Curiosamente, um estudo no Reino Unido encontrou taxas semelhantes de cancro do intestino/colorretal em vegetarianos e consumidores de carne, sugerindo que o consumo de carne por regra não é a maior causa para a aquela doença.

A correlação entre o cancro, os alimentos e as carnes é muito difícil de estudar, pois existem muitos elementos, reais ou percebidos, que podem favorecer o aparecimento e o desenvolvimento do cancro. As autoridades nacionais basearam-se em recomendações sobre os estudos desenvolvidos pela Agência Internacional para Estudos de Cancro (IARC) que destacam e classificam os agentes considerados, como "certamente" ou "presumivelmente", responsáveis pelo aparecimento de cancro.

O termo usado para algo que pode causar cancro é "Cancerígeno". Em termos de comunicação está no verbo "causar". Neste caso não pode ser interpretado como uma determinada causa-efeito. Por outras palavras, não é possível afirmar que "se comer carne processada, ENTÃO certamente terá cancro colorretal". Da mesma forma, não é possível afirmar que, se alguém for exposto a um agente cancerígeno, então certamente terá cancro. Os cientistas sustentam que "cancerígeno" é algo que, consumido em certas doses e por um certo período de tempo, pode aumentar o risco de desenvolver um certo tipo de cancro ao longo da vida. No entanto, quando essas informações são partilhadas com o público em geral, a interpretação geralmente é que, se uma substância ou alimento é cancerígeno, isso certamente causa cancro. 

Quando se trata de riscos e probabilidades todos temos uma opinião e podem ser usadas evidências anedóticas para provar ou refutar certas crenças. Assim, algumas pessoas acreditam que estaremos a salvo do cancro se não comermos um alimento específico ou algo que contenha uma substância cancerígena. Infelizmente isso não é verdade. Podemos ter (e estatisticamente acontece!) cancro do pulmão mesmo se não fumarmos e um cancro de cólon, mesmo se formos estritamente vegan. Ninguém poderá dizer com certeza se, mesmo comendo carne processada todos os dias, teremos ou não um cancro colorretal. Mas isso não significa que comer ou não comer um determinado alimento, nos iria expor alguém ao mesmo risco. 

Voltando ao relatório da IARC, os vários agentes não são classificados com base em quão cancerígenos eles são, nem o relatório trata da estimativa do risco, individual ou coletivo, de uma exposição a um determinado agente, uma vez estabelecido como sendo cancerígeno. Isso significa que não é correto tratar da mesma maneira todos os agentes cancerígenos. Afirmar que "a carne processada é como fumar ou como o amianto" está profundamente errado e certamente não presta um bom serviço à opinião pública. Os agentes cancerígenos são diferentes, mas não é tarefa da IARC classificar esse aspecto. Há também um ponto interessante a ser observado em relação aos valores de consumo investigados pela IARC, que são 50 gramas de carne processada ou 100 de carne vermelha por dia. Este nível de consumo é muito superior ao nível dos consumidores europeus e, em geral, do resto do mundo.

Os consumidores, como a maioria das pessoas confrontadas com decisões, têm reacções diferentes e por isso as informações fornecidas pelas autoridades são muito importantes e não devem ser construídas sobre fontes não baseadas na ciência. Alguns podem decidir continuar a comer, porque o risco é pequeno. Outros podem decidir reduzir o consumo. O mais importante para as autoridades devem ter em mente é que devem comunicar qualquer risco potencial de maneira clara e adequada.

Bibliografia:
- Cancer in British vegetarians - Keys T et al. (2014) Am J Clin Nutr 100(suppl): 378S–85S.

Será o processamento sinónimo de pouco saudável?

Não existe nenhuma razão objectiva para equipar processamento de facto a falta de saúde. É verdade que alguns aspectos específicos do processamento de alimentos podem de facto serem prejudiciais para a saúde, por exemplo por gerarem ácidos gordos trans ou reduzindo a disponibilidade de micronutrientes, mas no máximo será pouco preocupante no caso de carnes fermentadas, como o fiambre, o salame e as salsichas.

A palavra "processamento" é definida pelo dicionário Oxford como "realizar uma série de operações mecânicas ou químicas em algo para alterá-lo ou preservá-lo". Algumas etapas do processamento são inofensivas ou podem até ser benéficas, por exemplo, para permitir a preservação ou aumentar a biodisponibilidade de micronutrientes ou outros compostos benéficos. Os binários opostos das quais um termo é mais valorizado que o outro, como “processadas/naturais”, foram expostas pela teoria pós-estrutural como meras construções culturais, em vez de categorias fundamentais, nas quais podemos confiar com confiança.

Além disso, alguns dos ingredientes utilizados na produção de produtos à base de carne têm vantagens sensoriais, tecnológicas e especialmente higiénicas de segurança, as quais são negligenciadas, enquanto os seus impactos potenciais negativos são exagerados. Por exemplo, o nitrato em carnes fermentadas leva ao desenvolvimento de cores e sabores, além de maiores níveis de segurança alimentar, enquanto essas frações são muito pequenas quando comparadas com a ingestão através de água potável ou vegetais. 

Bibliografia:
- Gibney et al., 2017
- Cornwell et al., 2018; King and White, 1999
- Ribas-Agustí et al., 2017; Weaver et al., 2014

Porque é que a carne curada contem sal?

A prática de adicionar aos alimentos substâncias que facilitem o armazenamento não é nem uma invenção química nem industrial, é uma tradição ancestral. O uso de sal era e ainda é uma forma de conservar a carne e inibir o crescimento de bactérias.

São exemplos de substâncias adicionadas aos alimentos : a adição de um suco ácido (como o limão) para evitar o escurecimento de um vegetal; o uso do fumo da madeira, especialmente ricas em resina; e, no caso específico da carne, o uso de sal. Os romanos verificaram que o salitre melhorava a produção de carnes e chouriços, evitando o escurecimento da carne e principalmente impedindo a proliferação de bactérias indesejadas.

Precisamente por esse motivo, na produção de algumas carnes curadas, os nitratos e nitritos são adicionados em quantidades controladas, pois têm a propriedade de manter a cor da carne.

”Em 2003, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) num  parecer científico informou a Comissão Europeia que “na maioria dos produtos à base de carne processada, a adição de nitrito (ou nitrato) é necessária para impedir o desenvolvimento e a produção de toxinas favoráveis ao C. botulinum”.

Graças ao uso do frio e ao conhecimento microbiológico, mas também ao cumprimento das regras de higiene e da exploração das propriedades bacteriostáticas de especiarias e ervas como alho e pimenta, hoje em dia é possível produzir carne processada segura com poucos conservantes.

Nos presuntos DOP como o presunto de Parma (DOP = Denominação de Origem Protegida), por exemplo, o processo de maturação prolongada torna desnecessário o uso de sal, que na verdade já não é utilizado nesse produto. Como para todas as substâncias, também no caso do sal, um consumo excessivo pode levar a consequências negativas para a saúde.

Embora os nitratos sejam um componente de muitos alimentos vegetais (a alface contém 3 gramas por kg), o equilíbrio nutricional é a maneira de valorizar os benefícios de cada alimento individual, reduzindo os riscos à saúde.

Bibliografia:
- EFSA: Re‐evaluation of potassium nitrite (E 249) and sodium nitrite (E 250) as food additives

Os substitutos da carne, como a carne produzida in vitro, serão melhores para o ambiente?

Consumir carne ou os chamados “substitutos da carne” deve ser uma escolha pessoal, mas é importante que o consumidor esteja bem informado sobre as propriedades, métodos de produção, etc., antes de decidir. Contudo, baseado na informação disponível no momento, em termos de impacto ambiental, a produção in vitro não oferece qualquer vantagem ambiental quando comparada com a verdadeira carne.

De uma forma geral, na UE, antes de promover esse tipo de produção como uma melhor alternativa à produção pecuária, seria mais sensato avaliar os riscos para a saúde humana.

Algumas pessoas anseiam desde há muito tempo por produzir carne sem animais. Na década de 1930, Churchill já equacionava o futuro da carne cultivada. Contudo a realidade por detrás da utopia não é necessariamente o que Churchill poderia esperar. 

Carne de laboratório, carne cultivada, carne in vitro (IVM), são expressões diferentes que começaram a ganhar popularidade em 2013, após a produção e degustação do primeiro "hambúrguer" feito a partir de células estaminais por Mark Post da Universidade de Utrecht. Desde então a carne cultivada tem sido apresentada na comunicação social em uma das fontes alternativas de "carne" mais promissoras para resolver problemas de bem-estar animal e segurança alimentar, preservando o meio ambiente. Esta alternativa à carne convencional atraiu grandes investimentos, principalmente de conhecidas empresas de tecnologia digital que agora apostam na rápida aceitação desses produtos pelo mercado em detrimento da produção tradicional de gado. No entanto, quando comparamos os trabalhos académicos, a comunidade científica parece mais cética sobre o desenvolvimento da carne in vitro, do que a comunicação social em geral. 

A carne in vitro não é mágica, também precisa de ser produzida!  

De acordo com a definição dada por Mark Post, a carne cultivada, ou carne in vitro, é a carne derivada de tecidos e células cultivadas em ambiente laboratorial, em vez de num organismo vivo. Em termos factuais, a carne in vitro é um aglomerado de células musculares retiradas de um animal que se multiplicam em placas de Petri com um meio de cultura rico o suficiente para permitir que as células se multipliquem. Hoje, mesmo com as técnicas mais avançadas, os meios de cultura ainda precisam de hormonas, fatores de crescimento, soro fetal de bezerro, antibióticos ou fungicidas para permitir o desenvolvimento celular. Neste contexto, a carne in vitro não pode ser considerada como uma alternativa “natural” ao gado da UE, que tem de respeitar normas estritas sobre a utilização de antibióticos e previne a utilização de hormonas. Na verdade, tais produtos não podem nem mesmo ser chamados de "carne", pois alguns tipos de células importantes (por exemplo, nervos, adipócitos, etc.) não fazem parte desta invenção que é apenas uma cultura de células.

Culturas de células in vitro, um impacto ambiental que permanece controverso

Ainda não é claro se a produção de carne em cultura fornece uma alternativa climática mais sustentável. Os impactos climáticos da produção de carne cultivada dependerão do nível de geração de energia descarbonizada que pode ser alcançado e das pegadas ambientais específicas da produção. Há uma necessidade de uma LCA detalhada e transparente de sistemas reais de produção de carne de cultura. Com base nos dados disponíveis atualmente, a produção cultivada não oferece nenhuma vantagem ambiental em comparação com a carne real.

O fato de a carne de laboratório ser um processo que consome energia e envolve o uso de compostos e moléculas normalmente não permitidos para a alimentação de animais (hormonas, antibióticos, etc.) é muitas vezes ignorado. 

Aceitação pelo consumidor 

Os investigadores acreditam que a carne artificial pode ser rica em proteínas, mas ainda há uma grande preocupação com o teor de ferro e vitamina B12. Além da nutrição para se tornar aceitável para os futuros consumidores, um dos desafios da carne cultivada é imitar a carne tradicional em termos de qualidade sensorial / sabor a um preço acessível. Se as empresas envolvidas no desenvolvimento de carne cultivada em laboratório esperam ser competitivas até 2020, a replicação da complexidade real da estrutura e do sabor da carne continuará um desafio, além de convencer a grande maioria dos consumidores. Neste contexto, irrelevante para as percepções individuais, a carne in vitro não pode ser considerada uma alternativa de curto prazo, pois terá que enfrentar primeiro o longo e desafiador processo de aceitação do consumidor.. 

Bibliografia:
- Hocquette et al., 2013
- Cultured meat timeline 
- Cultured meat in western media: The disproportionate coverage of vegetarian reactions, demographic realities, and implications for cultured meat marketing 
- Bill Gates and Richard Branson are betting lab-grown meat might be the food of the future 
- https://www.futura-sciences.com/planete/actualites/rechauffement-climatique-viande-in-vitro-encore-pire-planete-vraie-75120/
- Is it possible to save the environment and satisfy consumers with artificial meat? 
- What is artificial meat and what does it mean for the future of the meat industry? 
- Climate Impacts of Cultured Meat and Beef Cattle - John Lynch and Raymond Pierre Humbert
- Lab meat is cheap enough for anyone to buy
- Consumer acceptance of cultured meat: A systematic review